
09/08/1998
Senhor Presidente,
A primeira palavra é de louvor a todos os que, com competência e dedicação, tornaram possível essa reunião e, também, a Portugal, pela acolhida fidalga que está dispensando a todas as delegações.
0 Brasil reputa esse encontro como de extrema importância, para que, de uma reflexão conjunta, nasçam políticas, condutas e atitudes para os problemas, reivindicações e esperanças da juventude.
0 cumprimento do Regimento da Conferência para que se forneça uma visão dos esforços e políticas do Brasil no setor da juventude, está detalhada no meu discurso formal e no documento técnico que se encontra a disposiçao de todos. Consideramos que, nesse campo, o Governo brasileiro nao tem medido esforços para desenvolver uma rede considerável de programas que se encontram em plena execução, mostrando, pelos números e recursos envolvidos, a questão da juventude como uma de suas prioridades.
A escala de alguns desses programas se equipara a números máximos atingidos por alguns países: a merenda escolar atende 70% dos municípios brasileiros em um total de 4.025, beneficiando 35,2 milhões de crianças diariamente. Foram distribuídos, somente no ano passado, 110 milhoes de livros didáticos à estudantes. Sao dados significativos da generalização de atendimento e dimensionam o esforço de um País que, embora com incalculável potencial de riquezas, ainda convive com índices de carência socio-econômica que nao permitem classificá-lo como plenamente desenvolvido.
Senhor Presidente
Desejaria, agora, porém, deter-me não na situaçao especificamente brasileira, mas no que deveríamos fazer, nessa nossa reunião, para realmente transpormos para o documento oficial de Lisboa algo de positivo e conseqüente, que distinguisse essa Conferência como um marco no avanço das soluções para as angústias da juventude.
Diga-se que, para boa parte dos aqui presentes, a juventude é apenas uma saudade. Entretanto, todos nós vivenciamos, com participação maior ou menor, inúmeras fases do mundo que muitos jovens conhecem hoje apenas como referências históricas.
Por isso, nao é demais recordar que a luta dessas gerações anteriores propiciou à segunda metade desse século, pelo menos, três fatos de extremo significado inclusive para a juventude de hoje: embora, infelizmente, prossigam as guerras localizadas, cessaram as guerras em escala mundial, poupando a vida de milhões de jovens que nao precisaram mais, como antes acontecia, serem brutalizados como vítimas inocentes da fúria belicosa dos mais velhos; o fim do domínio colonial de muitas regiões permitiu que muitas nações pudessem reger seu próprio destino; e a acessibilidade massificada aos bens da civilizaçao: tecnológicos, educacionais, esportivos, culturais e de entretenimento.
Desse modo, tenho convicção de que estas gerações, aqui hoje representadas por muitos Ministros, na companhia de outras posteriores que honram esse encontro, respaldadas todas por esse legado, terão algo de novo e prospectivo a dizer e propor à juventude mundial, que vai passar de um século para outro.
É, portanto, nesta direção que quero dirigir breve reflexão.
Estudos, pesquisas e fatos, no mundo todo, demonstram que três áreas vivem, em função de transformações ainda nao de todo avaliadas, uma aguda crise e, face ao lugar estratégico que ocupam na vida das pessoas entre 15 e 24 anos, acabam por não atender toda a demanda que a juventude tem do futuro. Um futuro sem violência, com amor, com educação, com a possibilidade de uma sexualidade prazeirosa e responsável, sem ameaça à saúde, com possibilidades de participação não só no âmbito da família, mas da comunidade, enfim, de tantos outros desejos que, embora nao pertençam somente à juventude, bem caracterizam e definem essa etapa da vida.
Essas áreas críticas a que me referi sao: a família, a escola e o emprego. Sem abandonar as propostas que certamente surgirão para ajudarmos essas áreas na superação de suas dificuldades, uma vez que ninguém nega que aí estão os principais núcleos de absorção da juventude, eu queria dizer que a carência de meios e modos dessas instituições para lidar, na atualidade, com a complexidade que envolve a juventude mundial termina provocando o que eu considero ser o pior de todos os males, porque dele, talvez não exclusivamente, mas, principalmente, decorram os demais problemas: a desocupaçao.
Se considerarmos, para fins do conceito de juventude, a faixa etária entre 15 e 24 anos, perceberemos o quanto é importante pensarmos em produzir um panorama mais promissor para os que estao em pleno desenvolvimento psico-social.
Daí porque, acho que deveríamos trabalhar, nesse congresso, para encontrarmos uma saída criativa que pudesse ser seguida pelos países do mundo inteiro com preocupações voltadas para seus jovens. Uma saída que permitisse que, durante esta fase tão primordial da vida, os jovens tivessem ocupação permanente em atividades múltiplas que, de algum modo, os preparasse para o convívio comunitário, a integração no mundo do trabalho e a participação na sociedade.
Algo, como a criação do que se chamaria de "Pólos de Ocupaçao", onde o jovem que desejasse teria ali uma gama de serviços e estímulos que pudesse desenvolver não só suas habilidades e pensamentos, mas atendesse, também, algumas de suas necessidades básicas como: obtenção de documentos para o exercício da vida civil, orientações psicológicas ou sociais sobre temas variados como: amor, sexo, drogas, relação familiar, grupos vocacionais, novos mercados de trabalho. Enfim, aproveitar a extraordinária inventividade dos jovens que o mundo adulto deve procurar expandir.
No Brasil nós temos algumas experiências desse tipo chamadas Clube de Jovens, abrangem uma faixa etária uma pouco diferente - de 7 a 18 anos - mas fuinciona com a mesma filosofia, de manter o jovem ocupado após o período de horas em sala de aula. Os Clubes sao predominantemente desenvolvidos por Organizações Nao-Governamentais e Núcleos de Voluntariados, mas tem recebido estímulo e incentivos governamentais.
Os "Pólos de Ocupação", como estou chamando aqui, nao chegam a ser uma proposta, mas apenas um exemplo de como se poderia chegar, ao final desse congresso, com um recado, para usar a liguagem jovem, concreto na formulação de políticas públicas voltadas para juventude que se poderia adotar.
Sem dúvida, a educação é fundamental e estratégica na formação do jovem, assim como a família e, também, a superação das dificuldades, cada dia maiores, para o acesso ao trabalho. Mas, enquanto os resultados desses investimentos - que acredito que todos os Países, dentro de suas possibilidades, vem fazendo - surgem apenas a médio e longo prazo, é preciso construir caminhos novos para enfrentar imediatamente o problema da desocupação juvenil.
Porque a desocupação juvenil é responsável pela formação de gangues de adolescentes, da fuga para drogas, dos elevados índices de suicídios, da violência intra-familiar,, da perda do amor e estima próprio e dos valores fundamentais. Isso, somente, para citar alguns problemas.
Estou otimista: creio que podemos juntos construir algo inspirado nessa preocupação que acabei dividir com todos os senhores. Tenho certeza de que somente o jovem é capaz de impulsionar as sociedades, para a vanguarda das ideias e das relações sociais que moldarão o futuro e melhorarão o mundo. Num encontro sobre jovens - e com jovens - temos de apostar nas utopias.
Nosso dever de casa, nesse Congresso, é que o documento de Lisboa não retire as esperanças dessas moças e moços, porque um mundo sem esperança não é nada.
Muito obrigado.
José Gregori.
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