ATENÇÃO: TEXTO ANTECIPADO
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SG/YOUTH/1
7 de Agosto de 1998

 

"AJAM DE ACORDO COM OS VOSSOS IDEAIS"
APELO DO SECRETÁRIO-GERAL AOS JOVENS NO FÓRUM MUNDIAL DA JUVENTUDE

Problemas sem passaporte precisam de planos sem fronteiras

 

Apresentamos a seguir o texto da declaração apresentada hoje por Kofi Annan, Secretário-Geral das Nações Unidas, no III Fórum Mundial da Juventude do Sistema das Nações Unidas, em Braga, Portugal:

É com grande prazer que aqui estou hoje. A perspectiva global que este tipo de encontros pode inspirar é indispensável no mundo de hoje. As questões que enfrentamos ao aproximarmo-nos do século XXI -- quer se relacionam com o ambiente, a droga, as epidemias ou o desenvolvimento sustentável - são questões que transpõem todas as fronteiras. É esta a mensagem que as Nações Unidas pretendem transmitir ao mundo. No entanto, há muitas pessoas que continuam a pensar em termos locais, condicionadas pelas fronteiras nacionais.

A vossa presença aqui demonstra que a vossa geração é capaz de transcender esses limites estreitos e pensar em termos mais amplos. Isso é algo que me leva a felicitar-vos com toda a sinceridade.

Os desafios da nossa era são problemas que não têm passaporte, para os resolvermos, precisamos de planos sem fronteiras.

São jovens como vós que irão ser responsáveis por esses planos no próximo século. Congratulo-me por verificar que já começaram a pensar na forma como irão assumir essa responsabilidade.

O presidente John F. Kennedy disse uma vez que "os dirigentes da juventude de hoje são os dirigentes da juventude de amanhã". Creio que esse remoque era injusto, mesmo no tempo da Guerra Fria. No entanto, estou certo de que a vossa geração irá provar que essa afirmação estava errada. Muitos dos jovens aqui presentes irão assumir cargos de liderança ao longo da sua vida: na administração pública, na sociedade civil e no sector privado.

Neste mundo em transformação e de novos desafios, precisamos, mais do que nunca, que indivíduos dedicados e talentosos ingressem na administração pública. Mais do que nunca, precisamos que pessoas como as que aqui estão presentes hoje façam a opção de servir a humanidade.

Não é uma opção fácil. É possível que alguns de vós se sintam desencorajados por aquilo que consideram ser a fragilidade das instituições dos nossos dias e alguns de vós, poderão sentir-se tentados pelas vantagens imediatas que oferece o sector privado.

Aos primeiros diria: participar numa equipa vencedora é uma opção fácil.

É precisamente quando uma instituição, uma causa, está a lutar por encontrar o caminho a seguir que precisa do apoio das melhores e mais corajosas pessoas.

Aos segundos diria: a recompensa de trabalhar ao serviço da humanidade vai muito além das vantagens materiais; essa recompensa consiste em saber que a intervenção de uma pessoa -- a vossa intervenção -- pode ser importante.

Jovens amigos, já demonstraram que, em vez de esperarem pelo futuro, as organizações de juventude têm a importante tarefa de trabalhar em conjunto com os governos para procurar vencer os desafios do mundo de hoje.

Os jovens estão, de facto, a demonstrar o que significa intervir a fim de mudar o mundo para melhor.

Quando pensamos em intervenção, tendemos a pensar em exércitos, alianças e organizações. Mas intervenção pode significar muitas coisas. Sim, uma aliança militar pode intervir quando a instabilidade ameaça uma região.

Mas há também um tipo de intervenção mais cívica e pacífica.

Os cépticos poderão perguntar, o que é que jovens como vós poderão fazer em relação às empresas gigantescas, às ameaças ecológicas e ao conflito organizado?

Sei que podem fazer muito. Veja-se a Campanha Internacional para Proibir as Minas Terrestres -- a força impulsionadora do tratado do ano passado, sobre a proibição da produção, armazenamento, exportação e utilização dessas armas abomináveis. Essa campanha demonstrou que não há limites para aquilo que a sociedade civil pode conseguir em parceria com os governos.

Foi a consciência crescente entre pessoas comuns, muitas delas jovens como vós -- um movimento de bases caracterizado pela convicção e pela coragem -- que levou os governos a reconhecer que as minas terrestres implicam custos muito superiores à necessidade de as utilizar.

Impelida pelas exigências de cidadãos do mundo inteiro, promovida incansavelmente por organizações regionais e organizações não-governamentais (ONG), a eliminação das minas terrestres tornou-se uma causa verdadeiramente global.

Como se conseguiu isso? Mil ONG de 60 países uniram-se com uma convicção firme, utilizando uma arma que acabaria por se revelar mais poderosa do que uma mina terrestre: o correio electrónico.

Ou, mais recentemente, veja-se o papel que a sociedade civil desempenhou ao sustentar a constituição de um Tribunal Criminal Internacional eficaz e justo. A Coligação de ONG para um Tribunal Criminal Internacional reuniu uma rede de centenas de ONG e especialistas em direito internacional com o fim de definir estratégias e promover uma maior sensibilização. Os seus esforços revelaram-se profícuos quando assistimos à assinatura do estatuto do TCI em Roma, há três semanas. Mais uma vez, aquilo que permitiu a criação dessa rede foi o correio electrónico e a World Wide Web.

Assim, a revolução da informação transformou radicalmente a sociedade civil. Permitiu que esta se tornasse a verdadeira guardiã da democracia e da boa governação no mundo inteiro. Os opressores deixaram de poder esconder-se dentro das suas fronteiras.

Uma sociedade civil forte, ligada através de todas as fronteiras com a ajuda das comunicações modernas, não permitirá que o façam -- uma sociedade civil que é impulsionada por forças subnacionais e está ligada por forças supranacionais.

Os jovens, que têm as aptidões necessárias para dominar a tecnologia do futuro e a energia necessária para enfrentar os desafios de amanhã, são a ponta de lança dessa nova sociedade civil.

Como é lógico, a relação entre as Nações Unidas e a sociedade civil teve, também, de se modificar radicalmente. No âmbito das reformas que introduzi no ano passado, todas os departamentos fundamentais das Nações Unidas designaram funcionários de ligação com as ONG para facilitar o acesso à Organização.

Ao nível dos países, nos casos em que isso se justifique, o sistema das Nações Unidas está a criar mais oportunidades de cooperação tripartida com a sociedade civil.

As opiniões dos jovens serão levadas em conta. É uma promessa que vos faço. A Assembleia Geral adoptou, já este ano, uma resolução exortando os Estados-Membros a considerarem a possibilidade de incluir representantes da juventude nas delegações que enviarem a reuniões importantes das Nações Unidas. Apraz-me verificar que o Plano de Acção adoptado durante este fórum irá ser apresentado, amanhã, em Lisboa, à Conferência Mundial dos Ministros Responsáveis pela Juventude.

Na sessão extraordinária da Assembleia Geral sobre o combate às drogas ilícitas realizada em Junho passado, sublinhei que a solução está nos jovens.

Foi-me apresentado um plano de acção por um grupo de jovens que trabalham na linha da frente da luta contra o abuso de drogas. A seu pedido, mandei distribuir esse documento aos chefes de Estado de todos os Estados-Membros.

Neste 50º aniversário da Declaração Universal dos Direitos do Homem, as Nações Unidas dependem, também, de jovens como vós, a fim de assegurar que esses direitos, que não reconhecem distinções de raça, nacionalidade, religião, sexo -- ou idade, acrescentaria -- sejam verdadeiramente direitos de todas as pessoas.

Meus amigos, os desafios parecem intermináveis. Mas as oportunidades que o futuro nos irá trazer também o são. A forma como as iremos aproveitar pouco tem a ver com a nossa origem, mas dirá muito acerca do nosso carácter.

Ajam de acordo com os vossos ideais; explorem fronteiras que pessoas mais velhas, mais sensatas, mais prudentes talvez não explorassem. O fracasso faz parte do êxito; se não fracassarem de vez em quando, isso significará talvez que não se estão a esforçar suficientemente.

Ter coragem não significa não ter medo, pois só os insensatos não têm medo; significa agirmos apesar do medo que sentimos. Enfrentem esses medos, corram riscos por aquilo em que acreditam, pois só assim irão descobrir aquilo de que são capazes; irão descobrir que, apesar de os vossos adversários vos magoarem, nunca poderão quebrar-vos. Vão para o mundo e intervenham. Boa sorte.