Acompanhe a 7a. parte da série especial da Rádio ONU sobre a produção de alimentos. Apresentação: Mônica Villela Grayley e João Duarte
"Crise Alimentar – Perigos e Oportunidades"
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"Crise Alimentar – Perigos e Oportunidades".
No programa de hoje, vamos falar dos próximos passos para vencer a alta no preços dos alimentos: o investimento na agricultura. A apresentação é de Mônica Villela Grayley e João Duarte.
Em 2050, o mundo deverá ter 9 mil milhões de pessoas. Três mil milhões a mais do que hoje. Uma das preocupações dos especialistas é como produzir alimentos para tanta gente. Actualmente, cerca de 860 milhões de pessoas não têm acesso a alimentos. Após um encontro da FAO sobre segurança alimentar, a organização recomendou duplicar a produção actual de alimentos para começar a resolver a crise. Mas como fazer isso? Foi a pergunta que a Rádio ONU fez a um morador da Libéria, no oeste da África.
Prioridade
Michel Sahr diz que é preciso dar prioridade à agricultura. Segundo ele, é necessário também mais empenho. Ele afirma que na Libéria existe muita gente fazendo muito pouco....
Em países como a Libéria qualquer solução passa pela reforma agrária, é o que diz uma outra moradora do país: Eva Flomo.
Eva Flomo afirma que se for dado ao agricultor acesso à terra, aos instrumentos que ele vai precisar para plantar, espaço para desenvolver as suas colheitas, o problema pode começar a resolver-se. Segundo ela, isso pode custar tempo mas é preciso começar em algum lugar.
Agricultura é a actividade económica mais importante dos mais pobres do mundo. De qualquer maneira, a assistência aos agricultores caiu mais de metade nos últimos 25 anos, segundo o director-geral da FAO, Jacques Diouf.
Recursos
Diouf diz que as instituições financeiras internacionais e regionais assistiram a uma redução drástica de recursos alocados à agricultura. Cerca de 70% dos mais pobres do mundo dependem dela para sobreviver.
Analistas dizem que os recursos para investir existem, o problema seria a hesitação dos doadores.
No ano passado, o Malaui decidiu implementar um programa de subsídios aos agricultores. No início, o país não conseguia atrair recursos externos como explicou o secretário para Agricultura e Segurança Alimentar do país, Andrew Daudi.
Segundo o secretário, todos os doadores foram contactados mas recusaram-se a participar com dinheiro. Foi então que o governo tomou a decisão de colocar os subsídios no orçamento anual. A razão para a recusa dos doadores é que o dinheiro usado seria gerado a partir de impostos dos cidadãos dos seus países. O nosso governo disse então que resolveria o problema da nossa maneira. E porque deu certo, os doadores agora elogiam o que foi feito no Malaui.
A relutância dos doadores em investir na agricultura deve-se ao facto de eles não entenderem o custo político de não fazer nada. A afirmação é do professor Jeffrey
Sachs, que é também um dos conselheiros especiais do Secretário-Geral da ONU para as Metas do Milénio.
Produtividade
Sachs diz que a agricultura é fundamental para qualquer dimensão da vida. Não só fornece os meios de sobrevivência dos mais pobres mas também nos proporciona continuarmos vivos. É a base para a prevenção de doenças. Ele lembra que a produtividade da agricultura em África é mais ou menos um terço. Segundo ele, é preciso que os investimentos gerem mais crescimento. Sachs afirma que há 30 anos que o mundo envia ajuda alimentar aos mais pobres e neste meio tempo tirou a agricultura da agenda das políticas para o desenvolvimento. O erro só foi reparado no último ano quando o Banco Mundial se deu conta do problema e tentou recolocar a agricultura na lista de prioridades.
Segundo o Banco Mundial, o apoio para incrementar o sector agrícola subirá de US$ 4 mil milhões para US$ 6 mil milhões. O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, disse que para duplicar a produção agrícola nos próximos 30 anos será necessário investir em toda a cadeia alimentar.
Zoellick afirma que o objectivo é melhorar a produção no sector para que os países em desenvolvimento possam beneficiar do aumento da procura de alimentos. Como parte desta estratégia de longo prazo, o investimento para pequenos agricultores e no agronegócio além da investigação no sector pode triplicar.
Investir na agricultura é uma prioridade, diz Nikhil Seth, especialista do Conselho Económico e Social da ONU, Ecosoc.
Seth afirma que cada dólar gasto no desenvolvimento da agricultura tem um impacto maior contra a pobreza e a fome que o mesmo dólar gasto em outras actividades incluindo os programas de erradicação da pobreza.
Revolução Verde
A Revolução Verde dos anos 1960 e 1970 foi bem-sucedida no cumprimento do seu objectivo principal: aumentar a produção da agricultura e de alimentos. A meta foi alcançada através de melhores tecnologias e sementes, irrigações e fertilizantes. O projecto foi implementado, em grande escala, na Ásia ainda que alguns especialistas afirmem que os benefícios da Revolução Verde não tenham chegado aos mais pobres.
Algo semelhante ainda tem que ser feito em África onde a crise alimentar é mais aguda. O ex-secretário-geral da ONU, Kofi Annan, disse que é hora de resolver a crise. Ele preside à Aliança para uma Revolução Verde em África. E diz que nas últimas três décadas a produção de alimentos no continente não acompanhou o crescimento da população.
Annan afirma que mais de 200 milhões de pessoas passam fome em África. Deste total, 33 milhões das crianças com menos de 5 anos estão malnutridas.
A aliança firmou uma parceria para melhorar o desenvolvimento do sector agrícola em África. O objectivo do acordo é actuar nas áreas de maior crescimento para criar oportunidades para os pequenos produtores.
Biodiversidade
Kofi Annan diz que a aliança deve-se concentrar em determinadas áreas a fim de promover a agricultura e produção ecológica de alimentos. Ele acredita que isso deverá gerar uma Revolução Verde que respeitará a biodiversidade e a variedade do continente e das suas colheitas. Para Annan, se a receita funcionar, África poderá celebrar um sucesso na luta contra a crise alimentar.
Para se alcançar os objectivos da Revolução Verde, África deverá percorrer um caminho mais longo que a aquisição de fertilizantes eficientes. A opinião é de Dickxie Verson Kampani, coordenador do Projecto Nacional do Malaui.
Kampani afirma que além de ajudar os produtores a aumentar as colheitas é preciso ajudá-los a vender os produtos no mercado. Segundo ele, a construção de estradas é um dos pontos que ajudarão a comunidade a vender o que produz. Ele lembra que os programas de irrigação também precisam de ser recuperados.
A proposta é apoiada pelo director-geral da FAO Jacques Diouf.
Infra-estrutura
Diouf diz que os investimentos são necessários na infra-estrutura rural e no controle de água para irrigação e drenagem. Segundo ele, 96% das terras aráveis na África Subsaariana dependem da chuva. Ele lembra que é preciso ainda a criação de reservas para evitar perdas que podem levar de 40% a 60% de algumas plantações. As estradas nas áreas rurais são fundamentais para levar o que é produzido aos consumidores para venda em mercados competitivos.
A necessidade de se garantir a produção sustentável da agricultura não é um problema só de África. Nikhil Seth diz que os investimentos não se devem limitar a fertilizantes e sementes.
Seth afirma que os investimentos massivos são para irrigação, água, estradas, reservas etc. Além disso, é preciso acabar com o desperdício no período da colheita e da pós-colheita. Ele disse que viu números de 40% a 60% de perdas de alimentos que ocorrem entre o plantio e até que a comida chegue ao prato do consumidor.
Com a crise alimentar foi soado também um alarme. E a urgência do tema conseguiu chamar a atenção do mundo. Para o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, que é um dos líderes nos esforços para produção de soluções a médio e longo prazos, a crise é uma grande oportunidade.
Oportunidade
Segundo Ban, com a crise vem uma grande oportunidade de se resolver o problema na raíz para os mais pobres do mundo. Ele diz que se eles forem ajudados com políticas eficientes aos níveis locais e globais, a solução virá. E com isso, se alcançará uma grande vitória para a igualdade social e de desenvolvimento no mundo.
Apresentação: Mônica Vilella Grayley e João Duarte
Produção: Laura Kwiatkowski.
Direcção Técnica: Carlos Macias
Edição Geral: Michele DuBach